30.6.12

Silêncio! que se vai escutar a Palavra.

Festival Silêncio, a decorrer até dia 1 de Julho. Cine, com palavras de escritoras dentro: «Marguerite Duras» de Solveig Nordlung e «Fátima de A a Z» de Margarida Gil, sobre Maria Velho da Costa, no cinema S.Jorge, hoje às 15h e  às 16h30 respectivamente.

29.6.12

contra o assédio, contra a violação, contra a desigualdade de género

em lisboa, a slut walk acontece no domingo, dia 1 de julho, com concentração na praça luís de camões pelas 15h00.

26.6.12

Resistir sem armar (II): «Mulheres e resistências não-violentas»


Quando fui convidada para participar nesta conferência [21 de Junho, Centro de Cultura e Intervenção Feminista], pensei que esta seria uma ocasião para transmitir um pouco da minha experiência enquanto membro da coordenação portuguesa da Marcha Mundial das Mulheres, através da ligação da UMAR a esta rede feminista internacional, desde o seu início.
A Marcha Mundial das Mulheres surge na sequência da Conferência de Pequim e em resposta à necessidade de uma ligação global das mulheres, através da sua auto-organização e mobilização contra a opressão patriarcal e a exploração capitalista. Partindo de um caderno de reivindicações com 17 itens, agrupados em duas grandes áreas – violência e pobreza – desde 1998 data do 1º Encontro Internacional até hoje, a Marcha Mundial das Mulheres não deixou de intervir, mobilizar, fazer alianças, marchar e reflectir, questionar e questionar-se porque num mundo em constante e acelerada mudança as feministas têm de saber analisar essas mudanças e fazer propostas.
A Marcha Mundial das Mulheres define-se como uma rede feminista internacional que une grupos de mulheres de base e os seus valores articulam-se em torno da mundialização das solidariedades, da diversidade, da criatividade, da autonomia, da independência, da liderança das mulheres e da força das alianças entre as mulheres e os movimentos sociais. A Marcha Mundial de Mulheres é uma rede de acções pacifistas.
A questão da paz esteve sempre no centro das preocupações da Marcha Mundial das Mulheres e surge como uma prioridade em Outubro de 2001 por ocasião do 3º Encontro Internacional da Marcha.
A questão palestina trouxe para a rua milhares de pessoas, organizando-se vigílias, marchas, petições de solidariedade que envolveram mulheres em todo o mundo em ligação com diversos movimentos sociais. Em Portugal, como aconteceu em muitos países, o apelo das organizações de mulheres árabes à solidariedade internacional denunciando os crimes perpetrados pelo governo de Israel contra o povo palestiniano, nomeadamente o massacre de Nablus e o genocídio no campo de refugiados de Jenin, trouxe para a rua uma corrente humana que ligou o edifício da representação da ONU em Lisboa à embaixada de Israel. Vivia-se o pós 11 de Setembro e a postura dos Estados Unidos reflectia-se na agressividade e impunidade israelita reforçada com o apoio do seu aliado americano. Nesse apelo das mulheres árabes, elas não só denunciavam a violação da Convenção de Genebra e seus protocolos e as Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como exigiam o fim do envio de armas e apoio militar a Israel, mas também davam destaque aos efeitos desta guerra na vida das mulheres.
O 4º Encontro Internacional em Mumbai, na Índia, iniciou-se no mesmo dia – 19 de Março de 2003 – em que as tropas americanas lançaram o seu ataque sobre o Iraque. No Encontro na Índia é adoptada uma Declaração de Valores que já vinha a ser debatida pelos grupos de mulheres da Marcha em todo o mundo,no qual se analisava que a situação e o contexto que então se vivia constituíam um recuo em relação à exigência de resolução pacífica dos conflitos. Nesse documento pode-se ler «A construção da paz é um compromisso actual, constante e de longo prazo.»
As exigências saídas deste encontro na Índia foram:

×         Implementar políticas de desarmamento;
×         Ratificar a Convenção contra minas terrestres;
×         Acabar com todas as formas de intervenção;
×         Assegurar os direitos dos refugiados;
×      Pressionar os governos a fazer cumprir e garantir os direitos humanos e a resolução dos conflitos;
×         Incluir mulheres nas negociações de paz, tal como mencionado na Plataforma de Acção de Pequim.

Se até essa data, as exigências desta rede feminista internacional se dirigiam aos decisores mundiais – FMI, Banco Mundial, ONU – e aos governos dos países, a partir de então e devido ao crescimento do fundamentalismo religioso, os líderes e organizações religiosas passaram também a ser consideradas como alvo a quem dirigir as nossas reivindicações.
No Afeganistão, com a justificação da luta contra os talibãs e pela defesa dos direitos das mulheres, assiste-se a bombardeamentos e à morte indiscriminada de populações civis. Nesta linha e na pretensa luta contra o Mal, a indústria dos armamentos torna-se florescente.
Em 2005, aquando da 2ª Acção Global da Marcha, a Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade, juntamente com a Manta da Solidariedade passou por 55 países entre o 8 de Março e o 17 de Outubro. Uma Carta baseada nos valores da Igualdade, Liberdade, Solidariedade, Justiça e Paz essenciais à construção dum mundo sem exploração, nem opressão, onde a integridade, a diversidade, os direitos e as liberdades de todos e todas sejam respeitados. Era a nossa utopia feminista cuja realização implica uma educação para a não-violência, não sexista.
Em 2006, no Encontro Internacional em Lima, no Peru, a Paz e a Desmilitarização surgiu como uma das 4 áreas de acção, para que se continuasse a reflectir sobre a necessidade de lutar pela desmilitarização a nível global, elevando a consciência através de uma perspectiva feminista sobre as causas das guerras, a nossa definição de paz e as nossas exigências e denunciar a violação como arma de guerra, a impunidade dos agressores e o impacto e as ligações entre militarização e violência contra as mulheres. Era necessário levar um contributo feminista sobre a guerra aos movimentos anti-guerra, frequentemente apenas focalizados na denúncia do imperialismo americano e omitindo as consequências da guerra nas populações, nomeadamente os impactos nas mulheres ao nível da sua integridade física e psicológica, saúde, auto-estima e personalidade, para além de sentimentos de vergonha e de culpa das vítimas.
Era fundamental quebrar silêncios e dar voz às vítimas e ao crime de violação como arma de guerra. Nas guerras, os corpos das mulheres e das meninas são usados como despojos ou como arma de guerra. Se recentemente na guerra dos Balcãs se assistiu a uma verdadeira limpeza étnica, na guerra da Argélia, as violações foram maciças por parte dos franceses e entre 1932 e o fim da 2ª Guerra Mundial, o Japão criou campos de escravas para os seus exércitos, os chamados “centros de relaxamento” onde usaram mais de 200 000 escravas sexuais “as mulheres de reconforto”. Segundo dados da Amnistia Internacional, o número de mulheres vítimas dos conflitos armados passou de 5% durante a 1ª Guerra Mundial para 50% durante a 2ª Grande Guerra e chega a quase 80% durante os anos 90.
Não foi por acaso que a Marcha Mundial das Mulheres aprofundou em 2010 o eixo da Paz e Desmilitarização, tendo escolhido a região de Bukavu, no Kivu Sul, RDC para encerrar a sua 3ª Acção Global. Esta região de África tem sido palco de crimes atrozes em que as mulheres têm sido de forma sistemática e organizada tratadas como despojos de guerra. Milhares de crimes sexuais, violações em massa perpetradas por “homens fardados” segundo as próprias palavras do porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA). Os efeitos das guerras são profundamente “genderizados” como atestam os milhares de civis mulheres e crianças mortas e feridas, os campos de refugiados onde de forma precária e insegura as mulheres e as meninas, obrigadas a abandonar as suas casas e regiões, lutam por refazer as rotinas quotidianas e são impedidas de ter uma vida normal. E essas consequências nefastas deixam marcas profundas e duradouras nas sociedades, em vastas regiões do planeta, impedindo o seu desenvolvimento e arrastando-as para uma situação de pobreza extrema, sem fim à vista.
Enquanto feministas não podemos deixar de denunciar a militarização crescente que a NATO impõe aos seus parceiros da UE e que foi legitimada no novo conceito estratégico estabelecido na cimeira de Lisboa em Novembro de 2010. O aumento da militarização, para além do reforço do grande negócio das armas, leva ao aumento das despesas militares, ao aumento dos orçamentos militares e consequente diminuição das verbas para as áreas sociais e serviços públicos, nomeadamente educação, saúde, habitação, segurança social. São áreas vitais em que a diminuição de verbas nos orçamentos nacionais acarreta um acréscimo de responsabilidades e de dificuldades nas vidas das famílias e das mulheres, em particular, a quem tradicionalmente são acometidas as tarefas do cuidar.
Apesar da crise económica e da diminuição dos orçamentos para os serviços públicos, as despesas militares não param de aumentar. Barack Obama, prémio Nobel da Paz, apresentou para 2011 o maior orçamento militar da história -708 mil milhões de dólares – o que representa um aumento de 7,1% em relação a 2010. Em 2008, os Estados Unidos representaram 41,5% do montante das despesas militares mundiais e a China foi a segunda potência com 5,8% do total.
Para além do crescimento das despesas militares, há que referir a presença das Private Military Companies, indústrias que geram centenas de milhares de dólares ao mesmo tempo que conduzem à militarização dos quotidianos das pessoas. Com o discurso de « restabelecer a paz » justificam a ocupação, controlando os territórios e os seus recursos naturais e humanos.
No ano 2000 foi adoptada a Resolução 1325 pelo Conselho de Segurança, assim como outras resoluções relacionadas com as questões da violência sobre as mulheres em situações de guerra ou com o reconhecimento do papel e da participação das mulheres na resolução dos conflitos, assim como no estabelecimento de prioridades na reconstrução do país e relações sociais pós conflito. O aumento da participação das mulheres – que é actualmente de 8% destes contingentes - poderia significar o reforço dos processos comunitários de reconciliação e as suas recomendações poderiam ser as prioridades a seguir em matéria de orçamento e de reorganização da vida económica e social; no entanto, essa participação ficou reduzida à participação das mulheres nas chamadas operações de manutenção da paz.
No entender da MMM, a participação das mulheres nos processos de negociação deve estar associada à afirmação de uma agenda política própria de questionamento das causas dos conflitos e dos ataques aos direitos e à integridade das mulheres. Como construir a agenda das mulheres em torno da militarização e como é que as vozes e a experiência das mulheres de base e as suas visões feministas se podem exprimir nesse contexto, constituem o desafio actual.
A experiência da MMM através de coordenações nacionais ou de grupos de contacto em países onde as Nações Unidas estão presentes militarmente – Haiti, Sahara Ocidental, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Sudão, Chipre, Índia e Paquistão - é de preocupação pelo facto de essas missões se terem tornado permanentes, com profundas e perversas consequências na vida local, nomeadamente pelas distorções na economia local e ao nível da exploração sexual das mulheres e meninas. Ao transversalizar-se o género na política militar, acabou-se por militarizar a política de género, segundo certas activistas da MMM. A questão não é como operacionalizar a transversalidade de género na política de segurança das Nações Unidas, mas sim o pôr em causa a política que está na sua origem. Esta foi a análise feita em Novembro passado no 8º Encontro Internacional da Marcha, realizado nas Filipinas.
A pretensa “sensibilidade” presente no discurso do “mainstreaming” de género nas estruturas e actividades conduzidas pela NATO e pela UE não passa de mistificação, pois não é mais do que um adocicar dos reais propósitos belicistas que o novo conceito estratégico aponta, caracterizado pelo alargamento territorial, o expansionismo militar, o reforço da militarização, e não pelo esforço real para a construção da paz.
Defendemos, enquanto feministas, que as mulheres devem desempenhar um papel fundamental e autónomo na prevenção de conflitos, na sua resolução pacífica e ser obreiras de uma ordem mundial baseada na paz. A lógica dos conflitos militares é uma lógica patriarcal e capitalista.

Neste quadro de reforço do poder imperial e de reforço do poder bélico e dos senhores da guerra, o que fazem as mulheres? O que podem fazer as mulheres?
As mulheres resistem e dão exemplos de coragem, de persistência, de resistência verdadeiramente notáveis. Aung San Suu Kyi líder da oposição birmanesa privada da liberdade ao longo de duas décadas finalmente eleita deputada de forma esmagadora; Taslima Nasreem obrigada a exilar-se do seu país por ter ousado denunciar o Corão como instrumento de discriminação e opressão das mulheres, continua sob a ira da sharia dos islamitas; Malalai Joya, a jovem afegã militante da RAWA que ousou levantar a voz contra os senhores da guerra e todos os que tinham as mãos manchadas de sangue; Olga Marianoa fundadora da AMUCIP, a primeira e creio que única associação de mulheres ciganas, enfrentou muitas resistências na sua comunidade por ser mulher e viúva. Olga diz que é uma “mulher-árvore” orgulhosa das suas raízes e dos frutos que vão nascendo dos seus braços solidários; Esmeralda Mateus, presidente da Associação de Moradores do Bairro de Aldoar e verdadeira líder e organizadora dos moradores pobres do bairro.
Nomes famosos alguns, outros nem tanto. Mas o que aqui quis trazer e visibilizar são alguns dos muitos milhões de mulheres totalmente anónimas que são muitas vezes as sobreviventes, as grandes heroínas que conseguem dar vida às suas comunidades.
Trago-vos aqui este objecto que tem para mim um enorme simbolismo. É um Cesto da Paz que trouxe de Kigali, do Ruanda, onde estive como delegada no 5º Encontro Internacional das MMM. Visitámos várias associações de mulheres, podemos dizer as grandes obreiras da reconstrução do Ruanda após o genocídio de 1994, em que morreu um milhão de pessoas em 100 dias, e onde 70% da população era constituída por mulheres. Este cesto foi feito na associação AVEGA, formada por viúvas do genocídio. Destroçadas, destruídas, pois eram muitas vezes as únicas sobreviventes de toda a família, perceberam que estava nas suas mãos sair da depressão e encontrar a energia para ajudar outras viúvas a continuar a viver. Enquanto tecem os cestos em sisal, falam, contam as suas histórias e assim exorcizam os fantasmas e os traumas do horror vivido. Trabalham e exportam os seus cestos da paz, miniaturas dos cestos onde guardavam a comida, usados na celebração dos casamentos e que foram incendiados aquando dos massacres. Hoje eles são um símbolo da identidade nacional, da reconciliação e guardam o maior tesouro dos/as ruandeses – a Paz – assim como todos os sonhos e os segredos que cada um/a tem. Daí que não se possa tirar a tampa, para que os sonhos e a paz não fujam, porque são demasiado preciosos para os perdermos. Sempre que se compra um Cesto da Paz isso dá esperança a uma viúva ruandesa e aos seus órfãos e órfãs, esperança de paz para o mundo e para o Ruanda.
Termino, citando a afirmação nº 1 referente ao capítulo da Paz na Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade adoptada a 10 de Dezembro de 2004 no Ruanda, no 5º Encontro Internacional da Marcha Mundial das Mulheres: “Todos os seres humanos vivem num mundo de paz. A paz resulta, nomeadamente, da igualdade entre mulheres e homens, da igualdade social, económica, política, jurídica e cultural no respeito dos direitos, da erradicação da pobreza que assegura a todas e a todos uma vida digna, livre de violência, onde cada uma e cada um dispõe de um trabalho e de recursos suficientes para se alimentar, para se alojar, para se vestir, para se instruir, ser protegido na velhice, ter acesso aos cuidados de saúde”.

Que esse sonho fique aqui guardado e que possa ser concretizado com a nossa resistência, as nossas palavras, os nossos actos, a nossa militância e activismo.

Almerinda Bento

Provérbio: Quando tu educas um homem, educas o indivíduo. Quando educas uma mulher, educas uma nação.

21.6.12

Reviver o passado no III Congresso Português de Sociologia


Entre 7 e 9 Janeiro de 1996 realizou-se em Coimbra o III Congresso Português de Sociologia (sob o tema «Práticas e processos da mudança social») onde também apresentei uma comunicação intitulada "TELEVISÃO: UMA NOVA SOCIEDADE DE INTERCONHECIMENTO?". Deixo aqui esse texto, publicado posteriormente em actas pela APS.

Nesta última metade da década de 90 os processos da mudança social aceleram-se em várias frentes, sendo que os media, e em particular a televisão, orquestram decisivamente a consciência quotidiana de um mundo em rápida transição.

Há que repensar a função do 'meio' enquanto espelho da realidade. A necessidade de reflexão sobre a troca de conhecimento na sociedade actual, à luz de uma nova ordem comunicacional instalada pelos media, com especial enfoque no papel da televisão, surge no centro do debate: uma nova sociedade de interconhecimento está para nascer?A televisão como instrumento que veicula realidades globalmente tão diversas, determina uma nova evolução nas interacções sociais. A realidade é o fio condutor da informação mas também do entretenimento. Ambos determinam a relação da televisão com os acontecimentos sociais que representa. Mais difícil de determinar é sem dúvida a relação entre o 'meio' e os fenómenos sociais que aflora, mas que dificilmente aprofunda. Embora de um modo privilegiado possa dar a ver várias perspectivas de uma realidade concreta, o carácter pluridimensional do terreno social não se compadece de abordagens 'rasantes'. De qualquer modo, a experiência mediatizada de acontecimentos (mais ou menos distantes) relatados pela informação noticiosa, tem como efeito a sua entrada na vida quotidiana. A rede dessa experiência surge assim na sequência das imagens visuais que a televisão difunde. 'Janela sobre o mundo', como alguns lhe chamam, a televisão cria os novos cidadãos televisuais. À distância, somos todos observadores não participantes de qualquer realidade social. Contribuiremos nós por isso para uma nova sociedade de interconhecimento, investidos que fomos neste papel de cidadãos televisuais? Ou será melhor falar de uma sociedade invísivel, que caminha para um 'nós' ao mesmo tempo que se afasta de um outro? Cada vez mais coabitamos um só mundo, mediaticamente posto em contacto, testemunha de si próprio mas não necessariamente actor social a tempo inteiro.

A projecção do presente numa nova geografia situacional do quotiano
Estar em todo o lado ao mesmo tempo sem o dispêndio (económico, social, moral) de sair de casa tornou-se uma situação comum  ao cidadão do final do séc.XX. A televisão leva até ao seu espaço privado um público global, formando uma realidade corrente e homogeneizada, reconhecível mas desligada da vida quotidiana. Através da crescente globalização do 'meio', os cidadãos têm acesso a cenários distantes com os quais poderão nunca entrar em contacto pessoal - nem com os lugares nem com as populações que visionam. Como refere Joshua Meyerowitz (1), "Cada vez mais os media transformam-nos em audiências "directas" de desempenhos que ocorrem noutros lugares e dão-nos acessos a audiências que não estão "fisicamente presentes".
Esta janela sobre o mundo tornou-se um ícone na paisagem electrónica que paulatinamente vai estruturando a consciência global. Nesta ligação com o todo, corre-se de um sítio para outro, de uma história para outra, de um discurso viaja-se para outro, num "zapping" constante. A televisão tem o poder de nos projectar  no presente e de nos familiarizar com acontecimentos que ocorrem num mundo agitado  por uma turbulência de que somos testemunhas. O espectador é um "zapper" que está em toda a parte mas sem presença corpórea. Viajante ou turista, o que fará ele deste poder da ubiquidade? Poderá sempre agitar grupos de opinião, e utilizar a sua esfera de influência e os seus espaços de circulação para gerar movimentos de apoio e/ou repúdio às realidades que presencia - à distância. A sua consciência tende a ser reflexiva relativamente ao que o rodeia, e neste sentido a identidade pessoal atravessa também uma mudança importante, onde a auto-observação e a auto-interrogação desempenham papéis fundamentais.Mas a influência do indíviduo nos sistemas sociais é difícil de estabelecer, pois a sua qualidade primordial é ser espectador, num mundo onde a experiência mediada, como lhe chama Anthony Giddens, não tem fronteiras: "Os eventos distantes podem tornar-se tão familiares, ou mais, do que as influências próximas, e integrarem-se no enquadramento da experiência pessoal. As situações à 'mão' podem de facto ser mais opacas do que os acontecimentos de grande escala que afectam milhões de pessoas. (...) A aparência, personalidade e políticas de um dirigente  político mundial podem ser mais conhecidas de um dado indíviduo do que as do vizinho do lado. Uma pessoa pode estar mais familiarizada com o debate sobre o aquecimento global do planeta, do que com as razões porque pinga a torneira da cozinha. Tão-pouco os fenómenos remotos ou de grande escala são necessariamente factores apenas vagamente "no pano de fundo" da constituição e identidade psicológicas de um indíviduo". (2)O eu e a sociedade interrelacionam-se assim através de um 'meio' global, onde os contextos de interacção são diversificados. A consciência tenderá a ser reflexiva, e neste sentido os acontecimentos e formas de experiência mediada determinarão condutas e opções de comportamento, e claro, novas sociabilidades.

A televisão como forma de conhecimento dominante no mundo de hoje
A televisão e os media em geral tendem cada vez mais a estruturar o conhecimento. Posto em marcha o seu processo de distribuição, a televisão filtra e enquadra a actividade humana e social, produz sentidos, molda discursos, representa e enfatiza algumas informações fundamentais. Karl Popper elaborou uma proposta - "Uma lei para a televisão" - que se encontra numa entrevista publicada em 1992, onde o filósofo aconselha: "O que as pessoas da televisão devem aprender a partir de agora é que a educação é necessária em qualquer sociedade civilizada e que os cidadãos de uma tal sociedade (...) não são produtos do acaso mas de um processo educativo. (...) A televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal; pode mesmo dizer-se que é potencialmente o mais importante de todos. Não pode haver democracia se não submetermos a televisão a um controle, ou, para falar com mais precisão, a democracia não pode subsistir de uma forma duradoura enquanto o poder da televisão não for totalmente esclarecido". (3)Este poder opera-se não através da linguagem da coerção mas sim através da linguagem da sedução. Ou seja, vivemos através da televisão uma realidade tecnológica que, à partida, nos seduz; ao criar tecnologias de subjectividade o 'meio' por sua vez vai criar os novos cidadãos televisuais. E esta é a grande viragem operada pela televisão que, com uma forma própria de inteligência, sentimentos gerados por simpatia comunicacional e princípios de dinâmica de crescimento, aparece aos olhos dos cidadãos televisuais e com eles faz o jogo mediático, cujos componentes emergem em vários tipos de programação, desde a informação ao entretenimento: o humor, o excesso, o espectáculo, o sonho, o drama, o horror, o suspense o "thriller", a surpresa. A emoção transmitida dará ao cidadão televisual uma consciência do tempo actual? e leva-o a reflectir sobre aquilo que vê? A sensibilidade do eu-em-relação surge como importante nesta discussão. Numerosas são as situações que causam intromissão crescente nas consciências. A emoção não deve ser limitada à esfera privada, já que cada vez mais ela é vivida colectivamente. Veja-se, por exemplo, o papel que desempenha a televisão no momento das catástrofes naturais, ou dos acontecimentos sangrentos. Quando vemos soldados nos palcos de terra, ou cidadãos atingidos por atiradores furtivos, ou reféns exibidos  perante as câmaras, somos tomados por solidariedade para com estes grupos. O efeito da realidade surge ainda acentuado pela sua visão imediata, e pela sua difusão maciça que socializa e globaliza essa realidade. Michel Maffesoli fala a propósito, de uma ambiência afectiva, onde as penas, e os prazeres, são experimentados em comum: "a televisão permite vibrar em comum. Choramos, rimos, pateamos em uníssono, e assim, sem que estejamos realmente na presença uns dos outros, cria-se uma espécie de comunhão, cujos efeitos sociais estarão ainda por medir". (4)O indíviduo que daqui parece emergir não existe senão para os outros. Para o melhor, ou para o pior (como temia Popper), vai definindo-se assim uma nova ordem social, situada numa esfera comunicacional que permite viver e entrar em 'rede' com os outros, mesmo que à distância e por controlo remoto.Fundada sobre o princípio individual, esta nova ordem reencontra o princípio relacional das sociedades tradicionais, onde o indíviduo não vale senão em função do grupo. Na nova ordem comunicacional, e de acordo com a sensibilidade imanente, 'comunicar visa menos operar uma transferência de conhecimentos do que criar laços: tornar comum". (5)Ao mesmo tempo, o grande apelo da tecnologia permite ao indíviduo desprender-se das suas memórias e dos seus pensamentos, dando-lhe em troca muitas outras memórias, muitos outros pensamentos e outros 'seres' televisuais. A televisão parece assim ocupar-se de um certo reencadeamento do código cultural humano, segundo a lógica da clonagem, transcrição e resequência, análoga à da genética. O gene da TV vai portanto ocupando-se de assuntos televisuais para as massas, preparando-as para a fase seguinte da cultura pós-TV contemporânea - onde a realidade virtual já se anuncia e onde se esperam novos modos de transmissão e recepção, já que desde a sua invenção a televisão tem sido usada numa base limitada.De qualquer modo isto é apenas o princípio do pensamento crítico sobre televisão no final do séc.XX, cuja discussão tem terreno fértil pela frente.

A realidade objecto da informação e do entretenimento e protagonização da sociedade
Situados num universo caracterizado cada vez mais pela circulação da informação, e portanto pela circulação de sentidos, os cidadãos vêm-se confrontados quotidianamente com os mais variados conteúdos (os assuntos televisuais). Todos os programas que povoam os nossos ecrãs falam uma linguagem que estabelece novos códigos e signos, que ajudam a definir uma realidade que mobiliza a vida social.As rotinas do jornalismo combinam-se regularmente para seleccionar certas versões dos acontecimentos em detrimento de outras - nesta produção de informação, a objectividade é a bússola mas as tecnologias de subjectividade são a sua ferramenta. Quotidianamente são identificados protagonistas e assuntos, e sugeridas atitudes  em relação aos mesmos. Mas, para além da experiência directa, aquilo que no mundo faz notícia, é já uma imagem mediática, composta a partir de princípios de selecção, ênfase, e apresentação, do que existe, acontece e importa. As imagens mediáticas organizam assim o mundo tanto para os jornalistas que o reportam, como para os cidadãos seus receptores. Mas na quantidade sincrónica de imagens incessantes, o fluxo de informação permanece unilateral e os indíviduos carecem de influência ou poder sobre aquilo que constitui a informação. Também neste sentido, o mundo exterior, como matéria, pode ser um lugar distante, onde a nossa acção não chega. Mas, em contrapartida, o contacto é privilegiado. Vivemos assim uma vida social, contextualmente situada num tempo e num espaço, cada vez mais permeável ao contacto 'mediático' com outros lugares e outras vidas colectivas. Nessa variedade de contacto surge favorecida a comunhão - mesmo que silenciosa - com outras gentes e culturas.A televisão leva até à esfera privada vários tipos de informação, todos eles permeáveis ao conceito do espectáculo. Sobre o facto é conhecida a opinião de críticos e teóricos, onde é sintomática a de Niel Postman: "a televisão está a caminho de transformar a nossa cultura numa vasta arena para o "show-bizz". O problema não é que ela nos ofereça divertimentos, mas que todos os assuntos sejam tratados sob a forma de "espectáculo", explorando a excitação sensorial, sobretudo visual". (6)Contudo, como observa Gilles Lipovetsky "Protestar contra a espectacularidade e a informação acelerada não modificará em nada as tendências em curso (...). Desejemos, em primeiro lugar, a melhoria da qualidade da imprensa escrita, antes de anatemizarmos a superficialidade e o "show business" do audiovisual." (7) Sem querer discutir os caminhos dos meios de comunicação de massa, o que aqui importa salientar é que a televisão é geradora, através do conceito de 'espectáculo' aliado à realidade, de uma protagonização da sociedade no seu todo, e dos indíviduos que a constituem.
O que é que a televisão altera na relação entre as pessoas? Representa o 'meio' um poder de união entre elas? Cimentará os seus valores? A encenação da comunicação e do sentido persegue - como refere Baudrillard - uma irresístivel desestruturação do social? Se, e parafraseando Mc Luhan (8), "medium is the message", não chegámos ao momento de pensar no devir das sociabilidades à luz da nova experiência mediada?Na modernidade os cursos de acção a tomar pelo indíviduo e pela sociedade são muitos e todos eles envolvem riscos. Ulrich Beck (9) caracteriza-a como uma "sociedade de risco", onde o curso da acção individual e colectiva não está predestinado, mas aberto a acontecimentos contigentes. Viver numa tal sociedade é escolher entre alternativas e finalmente entre  "mundos possíveis". O uso da informação e do conhecimento não já  local, mas global, orienta as escolhas na acção humana. E pela primeira vez na história da humanidade o indíviduo entra em relação com a sociedade através de um 'meio' globalizador. Mesmo à distância e por controlo remoto, o ideal comunitário à escala do globo pode estar na génese de uma nova sociedade de interconhecimento.E neste campo, o futuro revelará uma cada vez maior abertura ao mundo, interligado numa teia comunicacional de que para já se prevê a complexificação.
CRISTINA L. DUARTE
  
(1) "No sense of place" in Anthony Giddens, "Modernidade e Identidade Pessoal"
(2) Anthony Giddens, "Modernidade e Identidade Pessoal"
(3) Karl Popper, John Condry, "Televisão: Um Perigo para a Democracia"
(4) Michel Maffesoli, "La Contemplation du Monde"
(5) Pierre Babin, "Linguagem e Cultura dos Media"
(6) in Pierre Babin, Op.Cit.
(7) Gilles Lipovetsky, "O Crepúsculo do Dever"
(8) Marshall Mc Luhan, "Pour Comprendre les Media"
(9) in Anthony Giddens, Op.Cit.

Bibliografia
Babin, Pierre, Linguagem e Cultura dos Media, Lisboa, Bertrand Editora, 1993
Baudrillard, Jean, Simulacres et Simulations, Paris, Editions Galilée, 1981
Eco, Umberto, Obra Aberta, Lisboa, Difel, 1989
Giddens, Anthony, Modernidade e Identidade Pessoal, 1ª edição, Lisboa, Celta Editora, 1994
Lipovetsky, Gilles, O Crepúsculo do Dever - A Ética Indolor dos Novos Tempos Democráticos, 1ª edição, Lisboa, Publicações D.Quixote
Lopes, João, Teleditadura - Diário de um Espectador, Lisboa, Quetzal Editores, 1995
Maffesoli, Michel, La Contemplation du Monde, Paris, Grasset, 1993
Mc Luhan, Marshall, Pour Comprendre les Media, Paris, Mame/Seuil, 1968
MONDO 2000, nº 11, São Francisco, 1993
Popper, Karl, Condry, John, Televisão: Um Perigo para a Democracia, 1ª edição, Lisboa, Gradiva, 1995
Práticas Culturais dos Lisboetas, Coord. José Machado Pais, Edições do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 1994
Transmission - Towards a Post-Television Culture, 2ª edição, Londres, sage Publications, 1995

20.6.12

Germaine Dulac




«The Smiling Madame Beudet» (1923) é conhecido como o protótipo do cinema feminista, sendo realizado por uma mulher em 1923. Germaine Dulac explora a vida de uma mulher confinada ao papel de esposa, numa sociedade patriarcal.

Reviver o passado no I Congresso Português de Sociologia

Está a decorrer no Porto o VII Congresso Português de Sociologia, que se realiza de quatro em quatro anos e em cuja primeira edição esta escriba e a colega-amiga-socióloga Eduarda Ferreira tiveram a honra de participar. Estávamos em 1987, o discurso de abertura coube a Mário Soares, a quem pela primeira vez apertei a mão. A comissão executiva do congresso era presidida por Maria Carrilho e o presidente da Associação Portuguesa de Sociologia era João Ferreira de Almeida. Com o tema «A Sociologia e a Sociedade Portuguesa na Viragem do Século» discutido nas várias secções do congresso, uma delas - a sociologia da informação, do conhecimento e da cultura- acolheu a nossa comunicação intitulada «O efémero nos anos 80».






Actas do I Congresso de Sociologia, vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1990.

Angola em Lisboa


Trabalhar é preciso


Fios para que vos quero


31 d'Atalaia apresenta a série Primavera/Verão 2012 heart shaped stars do projecto URSOTIGRE na Rua da Atalaia, nº31 - Bairro Alto) na sexta-feira, 22 de Junho entre as 18:30h e as 21h. Uma conversa fiada à volta do tricot está marcada para 25 de Junho, à mesma hora.

16.6.12

Nora Barnacle ou o dia Bloom

Quem foi Nora? Nasceu em Galway, na Irlanda, em 1884, filha de um padeiro e de uma costureira. Estudou num convento e formou-se numa escola oficial em 1891. Teve alguns namorados antes de conhecer Joyce. Foi para Dublin trabalhar como camareira e no dia 16 de Junho de 1904 terão tido um encontro romântico, pouco dias depois de se terem visto pela primeira vez. James eternizou este dia no livro Ulisses, e a data tornou-se conhecida e celebrizada como Bloomsday. Naquele ano, o par deixou a Irlanda, passando o ano seguinte em Trieste. Tiveram um filho em 1905 e uma filha em 1907.  Embora a vida a dois fosse muito difícil, Nora casou-se em 1931 com James Joyce. Este morreu em Zurique em 1941 e ela dez anos depois. Em 1988, Nora Barnacle foi alvo de uma biografia feminista  escrita por Brenda Maddox, Nora: The real life of Molly Bloom. A obra passou para o cinema em 1999, num filme realizado por Pat Murphy, com Susan Lynch e Ewan McGregor.

fim de semana com alegria


Sociólogos/as unidos/as

11.6.12

In memoriam Maria Keil (II)




Pormenor de painel de azulejos pintado por Maria Keil para Metropolitano de Lisboa (estação Intendente).


Triste perda que o mural pintado
O azulejo calado
Outrora Maria passou
 
Deixou rasto dos contornos da espátula
Em espaços que a nossa pressa, à toute vapeur,
Silencia sem dar chance de voltar a espreitar   
 
Na prosa da sua pintura inata e pura
Toda a gente se aperceberá um dia
Que Maria se pinta com sabedoria.

Juliana Mello Souza
 
 

10.6.12

In Memoriam Maria Keil (1914-2012)



Ilustrações para «Começa uma vida» de Irene Lisboa, 1ªedição 1940. In postais de edição do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro e de Maria Keil.

6.6.12

Joanna

Joanna Mucha, a (muito criticada) ministra polaca do Desporto | P3



Isto é muito recorrente na Polónia quando uma mulher  assume um cargo político e público: logo uma grande parte dos media suspeitam algo fora do normal – se a mulher é bonita, ainda pior porque qualquer ginástica que ela fizesse, NUNCA contam as suas qualidades e capacidades, mas sim a beleza que capta atenção desviando-a do que é importante: eficácia e competências.
Estuda-se em pormenor o “passado” da mulher e se por acaso ela era  modelo, logo desconfia-se da capacidade de decisão e inteligência. Faz-me pensar na cultura horrível americana onde o passado dum/a político/a  logo dificulta o futuro.
O que cria desconforto aos muitos homens na Polónia (políticos, jornalistas, etc.) é que uma MULHER entrou num campo reservado aos HOMENS: desporto, ou melhor dizer – futebol. Serão feitos todos os esforços para desacreditar a mulher apontado todas as fraquezas reais ou imaginárias.
O argumento que ela não sabe nada sobre desporto faz-me rir à gargalhada, porque já vi tantos políticos polacos super incompetentes que mudavam os cargos que nada tinham a ver com as suas “competências” e experiência, mas ninguém ousou dizer nada porque, como eram homens, à partida eram competentes…
Para vos dar mais um pormenor sobre a Ministra Joanna Mucha: há um mês explodiu uma “bomba” quando ela, numa entrevista na televisão, disse ao jornalista que quer ser tratada como “senhora ministra” (em polaco, supostamente, não existe uma palavra “ministra” no feminino, só “minister” no masculino). Não houve nenhum órgão de imprensa que não dedicasse pelo menos uma página por dia ao assunto. Centenas de “especialistas” pronunciavam-se sobre o termo correto ou não, os linguistas escreviam as cartas abertas acerca de pureza da língua polaca apontando a incompetência linguística da MINISTRA (LOL) mas o que ela queria, e eu achei muito acertado, era fazer as pessoas prestar atenção que a invisibilidade de mulheres na língua significa a invisibilidade delas na vida política e pública! Ou seja, a invisibilidade na língua - quando ela não é inclusiva - ilustra a mesma invisibilidade de mulheres noutras áreas da vida - política, cultural, etc..
Concordo com ela 100% porque a língua é um ser vivo e deve “responder” às mudanças mentais, culturais e sociais duma sociedade. Mas a intenção da ministra Mucha foi distorcida e considerada uma piada de mau gosto.
 O jornalista Luciano Santos acabou também por não fazer o seu trabalho devidamente, porque o seu artigo lembra-me mais os mexericos mal contados do que o trabalho dum jornalista de qualidade, que se apoie em fontes concretas.   

Natalia Telega