5.10.11

A nossa jóia sufragista (II)



No dia 16 de Abril de 1878 nascia na Guarda a mulher que iria ser a primeira eleitora em Portugal e em toda a Europa do Sul, uma destacada activista republicana e militante feminista, Carolina Beatriz Ângelo, filha de Viriato António Ângelo e de Emília Barreto Ângelo. Depois de frequentar o Liceu na sua terra natal, rumou à capital onde estudou durante dois anos na Escola Politécnica e cinco na Escola Médico-Cirúrgica, concluindo o curso em 1902, ano do seu casamento com o primo, médico e republicano, Januário Barreto.
Pioneira a vários níveis, Carolina Beatriz Ângelo defendia o serviço militar obrigatório para as mulheres (ainda que limitado a funções administrativas) e, não obstante a oposição da família, foi a primeira mulher na prática cirúrgica, sendo a primeira médica portuguesa a operar no Hospital de S.José. Só mais tarde ela viria a dedicar-se à especialidade da Ginecologia.
Em 1906 CBA aderiu ao Comité Português da Associação Feminina Francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes – criada em França por Sylvie Flammarion em 1899 a agremiação que visava uma resolução dos conflitos internacionais, de arbitragem exclusivamente feminina.
Recenseada com o nº2513, CBA votou nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, ocorrida a 28 de Maio de 1911. O facto teve lugar na Assembleia Eleitoral de Arroios - instalada no Clube Estefânia (não na rua Alexandre Braga, onde hoje se situa, mas sim nas suas antigas instalações da Rua de D.Estefânia) – e teve larga repercussão tanto na imprensa nacional, como estrangeira. Num trabalho publicado em 1991, João Esteves afirmava que «mesmo tratando-se de um acto isolado, e também por isso mesmo, representou um passo importante na reafirmação sufragista das feministas portuguesas». Num artigo do mesmo investigador para a revista Faces de Eva nº11 defende que «Nunca uma dirigente feminista tinha sido objecto de tantas entrevistas, crónicas, debates e polémicas, sendo os títulos elucidativos da importância do que estava em causa (...); “O triunfo do feminismo – O voto da mulher em Portugal – Um jornal holandês [De Amsterdammer Weekblad woor Nederland] publica uma interessante entrevista com a sra.D.Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher que votou em Portugal” (A Vanguarda, 18/7/1911).»
Aos 33 anos de idade, no dia 3 de Outubro de 1911 falecia Carolina Beatriz Ângelo, de síncope cardíaca. Teve, como era seu desejo, «enterro civil e em tudo democrata» e foi sepultada no Cemitério dos Prazeres. Deixou orfã uma filha de oito anos, Maria Emília Ângelo Barreto, tendo expressamente exigido aos membros da família que se abstivessem de a vestir de luto. A morte da primeira eleitora portuguesa foi noticiada por vários jornais nacionais, e pelo semanário Votes for Women, orgão das sufragistas inglesas.
Os Estudos sobre as Mulheres, a História das Mulheres, os Estudos Feministas e de Género continuam a dedicar muita da sua atenção ao legado de cidadania, deixado por esta e por muitas outras mulheres.

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