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A mostrar mensagens de 2006

A Carta - IV

Hanna Arendt (n.Alemanha, 1906 -1975) escrevia no seu livro «On Revolution» (1963): «Guerras e revoluções caracterizaram até agora a fisionomia do século XX». Mulher da filosofia e da teoria política salientava que os homens não nascem livres e iguais - a liberdade e a igualdade são opções políticas. Por ser judia, viu-se privada do direito de apresentar na Alemanha nazi a sua dissertação sobre o conceito de amor e o pensamento de Santo Agostinho, fugindo para Paris, onde também trabalhou na ajuda aos refugiados judeus. A obra teórica de Hanna Arendt centralizou-se na política, nos regimes totalitários e autoritários, os regimes que mais colocam em causa os direitos humanos.
Para além dos direitos consagrados já nos textos internacionais e legais, necessários para que homens e mulheres se realizem plena e livremente, e pelos quais teremos de continuar a zelar - para o bem comum, pois a existência de pessoas destituídas de direitos humanos enfraquece a sociedade no seu todo - nada imp…

A Carta - III

Pelos textos de Elina Guimarães perpassava toda a dedicação de uma vida a escrever sobre as mulheres, as suas causas, as suas vitórias, sempre divulgando os avanços na legislação, e os debates sobre a acção da mulher na sociedade e na cultura. Contava a sua experiência, o seu conhecimento, as suas reflexões, e essa era a matéria que alimentava os seus interessantes artigos. Recordava no Diário de Notícias em 1987 o que significava para uma mulher ser formada em Direito em 1926: «quando me formei em Direito, esse diploma não me dava a possibilidade de participar em qualquer eleição e a maioria das profissões eram-me vedadas. Quando casasse perderia parte dos direitos sobre a minha pessoa e bens e não tinha direito sobre os meus futuros filhos. O feminismo estava representado por uma única associação e os homens troçavam. No entanto, eu acreditei no futuro e lutei por ele.» (Diário de Notícias, 10.03.87, p.28)
A ideia de futuro continua a guiar mulheres e homens por todo o mundo. Um mun…

Pastelaria

«Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precípicio
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com
fome
porque assim como assim ainda há muita gente que
come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do
peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra».

Mário Cesariny

(f.26 Novembro 2006 )

A CARTA - II

Será preciso ao homem experimentar a guerra para desejar a paz? No pós-guerra, a ideia de paz inundou as nações, que unidas (o nome «nações unidas» terá sido sugerido por Franklin Roosevelt, ainda na conferência dos Aliados, celebrada no ano de 1943 em Moscovo. Celebraram a sua primeira conferência a 25 de Abril (aqui está uma data histórica, aliada à paz e à liberdade e que une várias nações europeias) de 1945. Em Portugal já cumprimos o 50º aniversário sobre a nossa entrada como membro das Nações Unidas. Foi a 14 de Dezembro de 1955, em sessão especial da Assembleia Geral e por acordo entre os EUA e a então União Soviética - resolução 995 (X) -, que o nosso país passou a fazer parte daquela organização (o que entraria em vigor a 21 de Fevereiro de 1956), aceitando doravante as obrigações constantes da Carta das Nações Unidas, da qual reza assim o preâmbulo,

«Nós os povos das Nações Unidas, decididos: preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra que por duas vezes, no espaço d…

A Carta - Parte I

Grandes documentos começam numa carta. Assim foi com a Carta das Nações Unidas, assinada em São Francisco a 26 de Junho de 1945 e que, de acordo com o seu artigo 110.º, entrou em vigor no dia 24 de Outubro daquele mesmo ano.

Recuando um pouco mais no tempo, a precursora das Nações Unidas havia sido a Sociedade das Nações, com uma organização concebida em circunstâncias semelhantes durante a Primeira Guerra Mundial e estabelecida em 1919, em conformidade com o Tratado de Versailhes, «para promover a cooperação internacional e conseguir a paz e a segurança». Por ocasião da assinatura do tratado, a 28 de Junho, Louise Weiss (n. Arras,1893-1983), munida de um passe de imprensa, acorria à sessão oficial. Dirigia uma revista que tinha fundado, de política francesa e internacional, Europe Nouvelle, desde Janeiro de 1918 (e até 1934). Muito marcada pela Primeira Guerra, esta escritora, jornalista, europeísta e feminista, participa vivamente na construção europeia, ao integrar o movimento intel…

MuDança

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Dança das mulheres de Pemba, Moçambique, 2005. Fotografia de Eduarda Ferreira.

Olhar

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Praia do Tofo, Moçambique. Fotografia de Eduarda Ferreira.
O papel da mulher na mudança e enquanto elemento pacificador da sociedade - Parte V

A partir de meados do século XIX, e sobretudo após 1870, o discurso feminista passa a ser protagonizado por mulheres – insiste-se na aquisição dos direitos jurídicos o que significa que a mulher quer participar nas transformações sociais, ao lado dos homens. Essa é aliás a verdadeira luta pela igualdade, por um mundo melhor, onde as ideias por mais utópicas que sejam ambicionam uma harmonia e um equilíbrio apenas possível mediante a união dos sexos, em paz e em liberdade.
Algumas mulheres oitocentistas combinaram uma faceta de jornalista,
com a de pedagoga, e a de protagonista da mudança e de elemento pacificador numa sociedade que se pretendia mais justa. Alice Pestana (n.Santarém,1860 - f.Madrid,1929) escrevia regularmente na Vanguarda, com o pseudónimo de Cil, onde se pronunciou sobre o feminismo (mas também colaborou no Almanach das Senhoras, na Gazeta de Portugal, em O Século, e no Diário de Notícias…

A Leitura

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A maior feminização do trabalho e a luta pela instrução - Parte IV

Em Portugal, como noutros países europeus, «a construção do Estado-nação e da democracia implicou, desde a sua génese, a delimitação das fronteiras entre os espaços públicos e privados, os quais sendo sexualmente conotados, excluiam as mulheres dos primeiros. Da aceitação desta partilha à sua contestação percorreu-se um longo caminho, através do qual se foi construindo a indivividualidade feminina como ser social e político, sendo as reivindicações de direitos, em especial da instrução, elementos-chave do acesso à cidadania no século XIX.» [VAQUINHAS, Irene, «Historiografia das Mulheres (século XIX), Faces de Eva, Nº3, Edições Colibri, Lisboa, 2000.]

A análise comparativa da linha de pensamento feminino com a de pensamento masculino surge-nos em títulos como A Assembléa Litteraria, Almanach das Senhoras, A Mulher, O Recreio, O Luso, O Sol, A Federação, A Gazeta de Portugal, e A Vanguarda, ou A Voz Feminina, segundo Isabe…

O papel precursor de Antónia Gertrudes Pusich para o movimento feminista – Parte III

É na imprensa que se pode ler parte do pensamento feminino sobre a situação da mulher e o seu papel na sociedade oitocentista. Quando em 1849 surgia a Assembléa Litteraria– Jornal D’Instrucção , o primeiro jornal dirigido e fundado por uma mulher, Antónia Gertrudes Pusich (1805-1883), tal facto criava um marco – um antes e um depois na divulgação da escrita feminina - já que a partir daí os nomes femininos passavam a constar regularmente junto aos respectivos artigos, em vários periódicos, e isto não só na imprensa feminina. Na senda de Pusich, numerosas mulheres vieram a destacar-se nos jornais literários, de moda, noticiosos ou políticos, o que representou o início de uma luta pela sua visibilidade e pelo seu reconhecimento para além do agregado familiar, onde se desenvolvia toda a sua vida enquanto esposas, mães, ou filhas. O mundo lá fora, do trabalho, da economia, da política, enfim, dos poderes formalmente constituídos, era-lhes na realidade vedado, mas através da sua presença n…

O tempo das mulheres - Parte II

«Eu não sei se alguma das minhas leitoras se lembrará ainda de ter visto uns enfeites de fitas, e de fitas e flôres que se usaram no princípio do século passado, mas se não os viram entre os despojos do guarda-roupa elegante de uma avósinha querida, viram-nos com certeza nos retratos d’essa epocha. Pois esse enfeites voltam a usar-se, tendo apenas de novo a qualidade dos aprestos. Os francezes chamam-lhes coiffures du soir; não sabemos se já téem denominação em portuguez. (...)
Terminamos esta chronica dizendo ás nossas gentis leitoras que actualmente o cunho essencial da verdadeira elegancia é a apparencia de uma grande simplicidade, simplicidade que chegue mesmo a similhar negligencia.
A tesoura d’outros tempos está completamente fora de uso.»
[In «Elegancia e Bom Gosto – Jornal de modas, bordados e outros trabalhos artísticos», Suplemento ao O Petardo, 15 de Abril de 1908]


Este breve trecho do suplemento «Elegancia e Bom Gosto» já da primeira década do século XX revela o carácter cícli…

O jornalismo feminino no século XIX português - Parte I

Como um projecto de investigação, este tema foi pensado a partir do papel pioneiro da escrita feminina na imprensa portuguesa do século XIX, situando-o em determinados periódicos de época, como foi o caso de A Assembléa Litteraria, um jornal fundado e dirigido por Antónia Gertrudes Pusich, numa ainda larga panóplia de títulos de periódicos femininos levados à estampa no século XIX.

O gosto pelo papel da mulher pioneira, pela construção de uma escrita no feminino e pela história do trabalho das mulheres guiam este trabalho que, à reflexão, junta o prazer de descobrir novos nomes, novas prosas femininas, patentes em títulos já conhecidos de alguns investigadores e de algumas investigadoras, e entre as quais se destaca Maria Ivone Leal, com o seu trabalho Um Século de Periódicos Femininos, uma grande fonte, que denota um trabalho de grande qualidade e utilidade para a história das mulheres, para a história da moda e ainda para uma sociologia da memória.

Este projecto desdobra-se em algumas…